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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Vick e Melissa


Melissa falsificou uma identidade, entrou em uma casa noturna, bebeu algumas dozes , caminhou até um sofá vazio, cruzou as pernas, acendeu um cigarro, começou a observar as coisas em volta: um casal se amassando no sofá ao lado, um cara sentado no chão quadriculado com a cabeça entre os joelhos ( provavelmente bêbado) , viu as pessoas que dançavam na pista, pensou em levantar e dançar também mas desistiu, inclinou a cabeça para traz e soprou a fumaça para cima, baixou a cabeça novamente e viu a figura de uma mulher de cabelo vermelho artificial que se aproximava.
- Pode sentar?
-Claro.
-Ta esperando alguém?
-Não... to sozinha.
-Eu também. Como você se chama?
-Victoria, mas me chame de Vick. E você, como se chama?
-Melissa.
-Ta a fim de tomar alguma coisa?
-To sim.
Passaram a noite inteira bebendo juntas, sentadas no sofá dando risada. Conversaram como amigas de infância, perderam completamente a noção do tempo.
-Ta na hora mocinhas, estamos fechando.Disse o segurança.
Levantaram protestando contra o segurança, pagaram as comandas e saíram escorregando de salto alto pelo chão ensebado de terra e cerveja. Como ainda julgavam cedo demais para ir embora, foram até um hipermercado 24hs compraram uma garrafa de Whisky e sentaram a beber no estacionamento vazio, depois chutaram algumas lixeiras e deram risadas estridentes, vomitaram nas calçadas, escadas e praças da cidade respingando vômito nas pontas dos cabelos.
Depois de alguns minutos andando (agora sem sapatos) chegaram até uma ponte que cruzava um grande rio fedorento, então se debruçaram na mureta e começaram a observar o reflexo das luzes na água.
-Sabe nadar?
-Claro. Mas qualé que é Vick, tu ta pensando em mergulhar aí?
-Qual é o problema?
-A gente pode morrer.
-Eu sei. Mas o quê mas a gente poderia fazer?
-Não sei.
-Essa noite já era.
-Tem razão.
Nunca mais foram vistas.

O Maníaco da Seringa



A multidão caminha apressadamente rumo ao trabalho, os rostos se encaram ,mas não se enxergam, os corpos se tocam mas não se sentem. Um homem se camufla entre o povo, ele sabe que está invisível, ele anda pelo calçadão, entra no metrô, passa pelas escadas rolantes, vai ao shopping, ao cinema e continua invisível, mas ele não se importa.
Agora o homem caminha pelo parque, ele observa os namorados, os esportistas e as crianças no playground, seu rosto não denota expressão , mas sua mente funciona em ritmo acelerado alveijando-o com flashes de memórias que ele gostaria de esquecer, fazendo-o transpirar por todo o corpo, seu coração bombeia o sangue envenenado pelas veias salientes.Ele enfia a mão no bolso do casaco,lá está uma seringa com sangue sujo, é o seu sangue, e ele quer compartilha-lo com o mundo.
O homem sorri disfarçadamente enquanto segura a seringa dentro do bolso, andando entre as pessoas ele é apenas mais uma gota no oceano, uma dose homeopática de crueldade.Ele se aproxima de uma pessoa qualquer.
-É só uma picadinha - sussurra para si mesmo.
Pronto. O trabalho está feito, o jogo começou, ele escolhe os jogadores e os campos de batalha, está em cena o Maníaco da Seringa trazendo consigo o beijo frio e macabro da morte, passando pelas calçadas, metrôs, escadas rolantes, shopping centers e cinemas, nas filas, nos elevadores, entre as crianças, ao seu lado...